
Hoje resolvi escrever sobre uma fase de minha vida que queria esquecer, mas como um raio em uma tempestade ela insiste em aparecer, assim, do nada, só para eu saber que ela está lá e talvez vá me acompanhar por toda a vida...
Muitos sempre acharam que eu era o modelo perfeito de alguém que tem e teve problemas e sempre os conseguiu superar facilmente, não sei se pelo fato de ser muito rebelde, não sei se pelo fato de me mostrar muito masculina (não no físico e sim no emocional) ou pelo fato de sempre tentar expor para as pessoas o lado bom que existe em mim (sem saber elas, bom agora vão saber, que eu fazia questão de dizer que era transparente só para todos acharem que me conheciam)...
Para falar a verdade poucas foram as pessoas que viram minha face e conviveram comigo nesta época... A época da maldita depressão...
E não era nada simples..acho que a minha foi e é um modelo de última linha, aquele que aparece nas horas mais confusas, tristes ou felizes.. Não importa como, nem quando, nem com quem esteja, ela simplesmente aparece.. A diferença é que agora sei, pelo menos acho que sei, controlá-la.
Na maior parte do tempo eu era brilhante, viva, maravilhosa, envolvente, amiga e com um senso de humor que aprendi a construir para aliviar as tensões impostas por essa vilã..
A maior crise de depressão que eu tive foi na verdade a última, não que a primeira (ocorrida durante a separação dos meus pais) não tenha sido forte e tivesse me apresentado o quão ruim é sentir o medo da vida (porque quando você tem medo de um bicho esse medo desaparece quando o animal vai embora, mas como você pode fazer o medo da vida desaparecer quando esta está sempre com você, em todo o momento, a cada pulsar do seu coração, a cada inspiração?)...
Na última vez em que me vi mergulhada no mar profundo da solidão eu já estava com meu ex-namorado (afinal ele foi um astro e tanto no espetáculo do circo dos horores que era a minha vida.. Sem ele talvez não tivesse conseguido emergir e respirar) e tinha acabado de terminar o 3º ano do colegial.. Me via sem rumo, sem ter o que fazer.. Com medo de crescer e enfrentar o mundo a minha frente...Ficava deprimida por tudo, deprimida por sorrir, deprimida por chorar, deprimida ao ver um magnífico pôr-do-sol...Vivia 24 horas do meu dia mergulhada na minha escuridão, mergulhada no sofrimento e achava aquilo muito poético, pois foram em momentos de solidão que os maiores poetas escreveram suas obras...
Eu vivia para chorar e me lamentar para mim mesma, dentro do quarto, diante do espelho, ao olhar o meu reflexo de menina bem nutrida e perceber o quanto eu era egoísta por estar bem enquanto tinham milhares de pessoas morrendo por não terem um terço do que eu tinha.. Me perguntava sempre, porque eu tenho??? Porque eu como e eles não??? Porque, se existe um Deus, ele não iguala a todos e não reage diante de tanta injustiça???
Esse foi meu erro, achar que a diferença era o mal, que todos tinhamos que ser iguais.. Que todos tinhamos que ter e passar pelas mesmas coisas... Era horrendo. Eu sentia como se estivesse envolvida pessoalmnte com cada foco de tristeza que há no mundo. Era como se eu tivesse uma rede mundial de dor na minha cabeça, uma rede maior que a internet, e cada átomo de pesar que já havia existido estivesse sendo capitalizado através de mim, antes de ser empacotado e enviado a diversas áreas, como se eu fosse a centralizadora da miséria humana.
Churchill chamava a própria depressão de "meu cão negro" e conseguia entender o porque, já que adoro cães, mas se vocês não conseguiram entender vou mostrar o meu ponto de vista sobre esse, digamos, apelido...
Quando se está em depressão você não acha que aquilo é a pior coisa do mundo..você quer senti-la por mais que ela doa, porque quanto mais dói mais você sabe que está vivo, quanto mais dói mais você tem certeza que seu sofrimento pelos outros não é em vão.. Você se torna quase um mártir... Quando Churchill chamou-a de cão negro entendi que por mais dolorosa que seja, ela nos afaga, ela é uma coisa boa porque você sabe que sente e fica feliz por isso...
Mas pode-se perguntar como consegue-se controlar isso... Não é simples e nem digo que foi de uma hora para outra.. Para falar a verdade ainda tenho resquícios desse sentimento e dessa doença impregnados em mim como se fosse parte da minha alma.. Não digo que não sou feliz.. Isso está fora dos meus planos.. O problema é que tenho que lembrar sempre de que sou feliz.. Lembrar que há um mundo lá fora horrível e que sofrer somente, talvez não ajude a mudar essa situação.. E talvez seja por isso que eu tenha escolhido fazer Relações Internacionais.. Porque pensei que conseguiria mudar o mundo... Doce ilusão de adolescente que quero levar comigo para o resto da vida, porque na verdade, depois de muito lutar, descobri que o que move o ser humando não é o seu sofrimento e pesar pelo outro e sim seus sonhos e esperanças.....

